Foto: Kevin
A sala de aula começa a ter o cheiro do tempo quente. No espaço temporal de um mês o tempo aquece, as mulheres deixam de usar roupa por cima de roupa, as crianças esquecem os casacos, os gorros começam a desaparecer de vista, o suor aumenta, o cheiro típico de verão começa a pairar, a paisagem humanista altera-se.
A minha entrada na sala de aula é sempre como que uma rotina. Antes de entrar já os alunos estão sentados e começam a desviar o seu olhar quando me começam a ver aproximar e esboçam sorrisos. Os gestos, reacções, falas, olhares são sempre os mesmos. Levantam-se as crianças e exclamam: “Boa tarde Senhora Professora Ana” ao qual respondo “Boa tarde meninos” quase que ao mesmo tempo que miro todas as pequenas caras. Deito fora conversa banal com a senhora professora que com cara de alívio me vê arrastar de si os 8 alunos a quem chama de “burros”.
Hoje a minha entrada de sempre foi diferente. A senhora professora ainda não tinha chegado e à minha entrada obtive não o discurso habitual e decorado mas antes um silêncio insistente, incomodativo e, no mínimo, estranho. Quarenta olhinhos observavam-me com a cara típica de criança que depois de fazer asneira tenta pedir desculpa com o olhar. Olhei pela sala à procura dos vestígios da asneira em que os meus meninos, supostamente, se encontravam. Foi então que sentado a um canto a chorar encontrei o Kevin ainda encoberto pelos corpos dos seus colegas. O choro sôfrego expandia-se, agora, pela sala de aula e o seu nervosismo que se espalhava pelo pequeno corpo do Kevin foi o impedimento para que o conseguisse acalmar. Sem saber muito bem como reagir, agindo impulsivamente pelo meu sangue frio, puxei cuidadosamente pelo seu bracinho e levei-o para o pátio da escola. Ali, sentados debaixo da árvore centenária que nos dava sombra consegui finalmente acalmar o Kevin com um abraço. Já recuperada a normal respiração, com toda a calma, tentei entender o que se tinha passado.
Teria o Kevin perdido o lápis? Teriam batido a um dos meus meninos? Teriam tirado a sua pasta? Estaria doente? Magoado? – em segundos passaram pela minha cabeça imensas hipóteses para aquele choro estranho e inesperado. No entanto, apesar de uma pré-preparação de hipóteses cada uma pior que ela, atitude típica de mãe, ainda não estava preparada para ouvir a verdadeira razão daquele choro. Arrepiando-me, contorcendo-me toda, ficando com o olhar gelado, sem querer acreditar ouvi então a explicação do Kevin:
“_ Ainda não comi nada hoje senhora professora. Não havia comida em casa.”
