quarta-feira, 25 de abril de 2012

Anita vai a África II

Um dia acabei de te escrever com uma promessa.
Uma promessa que sabia bem que iria cumprir. Não foi, nunca, uma promessa em vão, uma promessa que não foi pensada, que não foi querida, que não era expectável, que saiu sem sentimento. Foi uma promessa que veio do fundo do meu ser, da mudança que fizeste na minha vida, da visão que me ajudaste a enxergar, do meu coração de menina de 20 anos.

Um dia acabei de te escrever com uma promessa.
Jurei-te que haveria de voltar. Com todas as minhas forças e com toda a minha coragem bati nas teclas do computador ao escrever aquela última frase. Lembro-me como se fosse hoje, estava sentada no sofá da sala com as pernas "à chinês" com o computador por cima e chorei a cada letra que escrevi. Chorei, chorei e ficou o vazio.
Durante muito tempo senti esse vazio. Não sabia explicar, não o queria explorar, não me queria interrogar. Durante muito tempo, vim aqui a este blog para tentar combater esse vazio, essa dor, para te relembrar, para nunca deixar que a saudade e o tempo nos apagassem. Não te consigo explicar como só de ler um ou dois textos parecia que me encontrava, parecia que por momentos voltava aí, à terra do vermelho-alaranjado, a essa certeza certa que só tu me conseguiste dar.

Um dia acabei de te escrever com uma promessa.
Mais do que querer, passou a ser uma necessidade, uma busca incessante, uma vontade inexplicável, uma certeza incerta e uma sensação que o meu caminho tinha que voltar a traçar-te.

Um dia acabei de te escrever com uma promessa.
Prometi-te "Nada mais será como dantes. África hei-de voltar!".
Nada mais foi e voltarei, voltarei para ti, para me perder novamente na onda em que só tu me sabes levar.

domingo, 30 de agosto de 2009


Aos melhores meses da minha vida:


Nada mais será como dantes.
África hei-de voltar!

sábado, 29 de agosto de 2009


Fotos: Orfanato 1º de Maio

A reacção não era a mesma, as feições não eram as mesmas, o olhar estava alterado, o sorriso dava lugar a uma tristeza, os berros típicos de crianças eram substituídos pelo silêncio que nunca reinava aquele orfanato.
Os mais pequenos não se aperceberam o que aquele último "olá" significava, mas os mais crescidos sim. Aquele "olá" seria o último, o derradeiro, a última visita, a última entrega tão próxima, o último sorriso partilhado, o último abraço. Sim, foi o último dia em que pisamos o orfanato 1º de Maio, que sentimos aquele calor a que já estávamos tão, tão habituados.
As horas foram passadas a brincar com os mais pequeninos. Os mais velhos não se aproximaram. Senti exactamente o que senti quando ali pus os pés pela primeira vez: que aquelas crianças não se deixavam tocar, não se aproximavam de nós a não ser pelo toque, não se ligavam, não nos deixavam ir mais além.
O toque foi habitual, os mais pequenos não sabiam que cada sorriso era uma despedida, por isso foram tão desprendidos como o usual, nem nós quereríamos de outra forma.
Via ao longe o olhar da Clarinha, da Florença e do Vicente. Falo-vos especialmente deste três meninos que me marcaram como nunca. O Vicente dava-me abraços leves, rápidos apenas quando lhe pedia, a Clarinha fingia nunca me ver, passando mesmo à minha frente, a Florença mirava-me sempre de longe, numa cara sem expressão.
Chegava a hora, não podíamos prolongar mais, era tudo demasiadamente doloroso. Despedi-me de todos com um beijinho na testa sem que algum deles se apercebesse que o meu aperto no coração aumentava com cada beijinho.
Foi nesse momento. Com o Vicente já abraçado a mim vi a Clarinha correr para os meus braços. Suplicou-me que não a abandonasse, que não me fosse embora, que não a deixasse, fazendo-me promessas de bom comportamente que supostamente me iriam convencer a ficar. Tentei explicar-lhe que não podia ficar da melhor forma que o limite da força que fazia para não chorar conseguia. Agarrada a mim já ao portão batia com os pés como quem faz uma birra e continuava a pedir. Sentou-se em frente do Portão para eu não o conseguir abrir. Não me queria deixar sair daquele sitio, não percebia a minha partida, não entendia que se gostava tanto dela o porque da minha despedida. Choramos as duas juntas com o Vicente ainda agarrado a mim. Nessa altura chega a Florença. Aquela menina que tão raramente esboçava sorrisos, que tão levemente me deixava entrar no mundo dela, que tão dificilmente me olhava de frente começou a chorar sofregamente. Chorou, chorou, chorou. Nunca me custou tanto, ainda agora me arrepio. Nesse momento disse-me:

"_Sabes porque é que nunca falava contigo Ana?"

"_ Não Florença, diz-me."

"_ Porque me vais deixar, porque já sabia que ias embora. Vão todos para casa, eu fico sempre. E fico sempre sem as pessoas que gosto."

Como doeu. Nunca, nunca na minha vida me custou tanto uma atitude minha. Nunca!
"Morri" aos pedaços por dentro, vagarosamente, na meia hora que estive em frente ao portão do orfanato com aquelas 3 crianças. A "morte" é dolorosa, pelo menos a minha naquele momento foi.

Afinal de contas consegui tocar aquelas crianças tão aparentemente intocáveis.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009



Foto: Vicente

Imaginem...
Imaginem um orfanato colorido.
Imaginem o parque infantil onde 500 crianças brincam, se empoleiram nas grades,trepam árvores, correm uns atrás dos outros, gritam, chamam pela atenção dos que os olham.
Imaginem no meio de tanta multidão uma rapariga.
Imaginem uma rapariga sentada no chão, com pernas à chinês.
Imaginem a rapariga que enrolava a criança.
Imaginem uma criança de 3 anos sentada ao seu colo.
Imaginem o bater do sol na sua cara rechonchuda típica de uma criança pequena.
Imaginem que o bebé adormecera no seu colo, encostado ao seu peito com o dedo na boca.
Imaginem este cenário no meio da confusão.
Imaginem que os dois vivam um momento só seu.
Imaginem o olhar triste dessa rapariga.
Imaginem que é um olhar de despedida, de uma despedida forçada, necessária, imposta, que nenhum dos dois podia mudar.
Imaginem a despedida em silêncio.
Imaginem a perfeição do momento.
Imaginem o relembrar de todos os momentos que passaram juntos como flash-backs nas suas cabeças.
Imaginem a lágrima a cair do canto do olho da rapariga.
Imaginem um sentimento vazio.
Imaginem...


Hoje despedi-me do Vicente. Custou-me. Sem ele saber desejei leva-lo comigo para Portugal. O meu Vicente. O meu texuguinho.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009


Foto: As pintarolas

Sentei-me na secretária de aula. Pedi para as minhas 7 pintarolas se juntarem a mim. Hoje faltava o Sipriano. Ainda bem, o meu primeiro confronto com a despedida seria menos doloroso.

"_Meninos a professora tem que falar com vocês sobre uma coisa!"

A rita fez cara de espanto, a Ema de medo, o Igor de desconfiado, o Kevin não moveu a expressão que já tinha, a Brigida continuou com o seu sorriso sempre presente e o Faquir abriu a boca. Senti o coração tremer. Estava rodeada das minhas pintarolas, dos meus meninos. Como gosto daqueles miúdos.

"_Minhas pintarolas vocês já sabiam que a professora ia ter que ir embora não sabiam? - recebi uma resposta afirmativa com a cabeça em conjunto. Os olhares dos seis mudavam, trocavam-se uns com os outros e encontravam-se não sei bem a procura do que - pronto, esse dia vai ser sexta-feira. A professora vai embora sexta-feira. Igor vai lá apontar à cartolina em que dia da semana estamos e quando é sexta-feira."

Acho que nunca vos disse. A "parede das pintarolas"- como lhe chamo- é uma das paredes da sala sombria e com cheiro estranho em que dou aulas. É a parede junto às secretárias onde trabalhamos. Esta minha parede está repleta de cartolinas, de desenhos, de estratégias desesperantes para tentar fazer com que as cores, o abecedário, as palavras, as horas, o calendário fluíssem mais facilmente naquelas cabecinhas. No meio de tanta tralha de parede, existe o calendário. O Igor, apesar de ser o mais alto da turma, é pequenino e só chega ao calendário em cima da cadeira e de bicos de pé. Assim, nesta mesma posição, apontou para segunda-feira e disse:

"_ Estamos aqui. Não é senhora professora?"
"_ Sim muito bem Igor. E quando é sexta-feira?" - respondi eu.
"_ Sexta-feira é aqui!"

Falou antes de apontar. Antes de apontar parou a olhar para a cartolina. Virou-se para mim e disse:

"_ Já?"

Olharam todos para mim à espera de uma resposta que eu mesma não tinha. Sim já, era já.

"_ Mas a professora volta, não volta?" - os olhos de interrogação sugavam-me. Não queria responder que talvez não o iria ver mais. É o mais provável, sim infelizmente é verdade. Não o queria dizer, pensar, reflectir, sentir.

"_ Talvez queridos."

"_ Para o ano?"

"_ Não para o ano vêm novos professores. Não sou eu, nem a professora Joana, nem o professor Elias. Vai ser giro, vão ver. Os outros professores vão ser vossos amigos."

Foi então que o Igor perguntou de rompante como quem arranca rapidamente a cera para não magoar tanto.

"_ A professora não volta... Nunca mais?"

Fiquei calada. Não tive resposta, não tive reacção. Aprendi aqui em África a, por vezes, não ter reacção às coisas. Ficar calada, sem saber o que dizer, o que fazer, o que sentir.

Agarrei-me a eles, sim em plena aula, não queria saber o que a professora iria achar. Estava ali, naquele pedaço de aula que é o meu, que é o meu espaço de cor naquela sala sombria.



"_ Quando for embora eu vou chorar. Vou ter saudades professora" - disse a Ema, afirmaram os outros.


Estas são as minhas pintarolas, o meu orgulho, os meus olhos, os meus berros, a minha pureza, a minha dedicação, o meu suor, a minha luta, a minha vitória!

domingo, 23 de agosto de 2009


Fotos: Ricochó


Contagem decrescente. Dizer assim parece que é algo negativo, algo que esperamos que acabe, algo que ansiamos o seu fim, algo que não marcou pelo lado bom da vida.
Não, nada disso, isso é errado. Quer queiramos quer não entrei esta semana numa contagem decrescente que me custa, que não queria, que não anseio que acabe. UMA SEMANA! Não quero que acabe os melhores dois meses da minha vida. Não o digo com medo, com atrevimento, com dúvidas. Escrevo-o, digo-o, demonstro-o com toda a certeza que os meus 20 anos podem ter.

Entrei neste projecto a dizer: "_Vou receber mais do que vou dar" Como é verdade. Não me ousem dizer: "Ahh... foste tão corajosa. Que nobreza!" Não. Não me voltem a dizer isso. Durante estes dois meses aprendi mais do que em quaisquer dois meses na minha vida. Não me falem deste projecto como se não recebesse nada, como se saísse daqui vazia, como se fosse eu a única e exclusivamente que iria dar sem retorno. Dei, sim é verdade, dei. Dei de mim a um projecto como nunca antes, dei aquelas crianças o limite das minhas forças, dobrei-me em mil para muitas vezes lhes conseguir chegar, com as 13 pessoas que vivem comigo dei o melhor de mim, o meu esforço diário, o apoio mais forte que consegui, as risadas mais puras que vivi, a este povo dei uma nova visão de vida.


Não apenas dei. Recebi. Recebi muito. Com uma casa cheia aprendi a ter calma, a ter respeito, a ter uma serenidade que desconhecia no limite do meu fervilharão tipico de uma jovem de 20 anos, aprendi que ainda existem amigos verdadeiros, aprendi a beleza dos defeitos das outras pessoas, aprendi a comer numa mesa cheia, aprendi a aceitação de ideias contraditórias, com este povo aprendi a felicidade extrema, a facilidade da vida, a superação de tantos problemas, o sorriso genuíno, o lado bom da vida, a pobreza, o verdadeiro choro, o aperto no coração, um lado da vida negro que a minha bolha actimel nunca me deixou ver, a simpatia, a lealdade, a fome, o olhar de medo, com aquelas crianças da escola aprendi a ajuda, aprendi a calma, aprendi a atenção, aprendi a ser compreensiva, aprendi a ter que ser inovadora, aprendi a ultrapassar o que desconhecia, aprendi a errar, aprendi a errar com o apoio daquelas pintarolas que errando eu, nunca me censuraram, sempre me ajudaram, aprendi a felicidade e realização de juntos conseguirmos começar a ler pequeninas palavras, fazer pequeninas contas, aprendi o espírito de união que pode existir entre 7 crianças. Com o Sipriano aprendi a diferença, aprendia a beleza dos gestos simples, aprendi o sorriso puro, recebi o beijo mais intenso da minha vida, aprendi a vitória das pequeninas coisas, aprendi que é possível mudar a vida, o futuro. Com as crianças do orfanato aprendi um lado terrível da vida, aprendi a dureza de quem vive na rejeição, aprendi como é duro ver todos irem para casa e uns a sempre ficarem, aprendi a chegar ao coração de quem inicialmente não nos deixa, aprendi com o Vicente o abraço mais apertado do Mundo, aprendi com o Dudu a responder a perguntas difíceis, aprendi histórias cruéis que marcavam cada criança que ali estava, aprendi a reacção que cada um deles tinha quando receberam o seu primeiro caderno, quando pela primeira vez tiveram uma espécie de escola, o mais próximo de escola que lhes poderíamos dar. Com África, conheci as melhores paisagens de sempre, vive as maiores histórias da minha vida, aprendi a viver sozinha, aprendi a superar a saudade, conheci uma realidade que desconhecia, aprendi uma nova forma de caminhar, de respirar, de viver.



Superei o que achava que não conseguia. Superei, mudei, vivi, alterei e estou feliz. Estou feliz como nunca estive.

sábado, 22 de agosto de 2009


"Já tocaste o limite do Mundo. Sentiste?"