terça-feira, 3 de julho de 2012

Contagem decrescente: 2 dias.


Estávamos ali só os dois naquele café, num final de tarde de Outono, com o pior café que jamais bebi e que além de já ser mau só por si ainda me caiu pior quando ele me disse

“Ana, a Ana devia pensar bem, fazer um projecto assim apenas com estes meses será impossível”.

Primeiro admito, foi um pequeno choque. Aquele homem de cabelos brancos e com mais anos de experiência que eu acabava de me pedir para que não acreditasse naquilo que dentro de mim já começava a crescer, dizia para desistir do projecto que já explodia na minha cabeça e tentava derrubar todas as forças que tinha conseguido reunir.

“A Ana devia ponderar fazer o programa só para o ano. Tem que entender que fazer um programa à distância, sem conhecimento será muito difícil, demasiado arriscado”.

Todo aquele discurso a este ponto já não fazia qualquer sentido. Para mim eram só palavras, palavras vagas, sem significado relevante que apenas se exponham sobre mim numa realidade que não queria eu que fosse a minha. Mas, sinceramente? O que é que sabia eu? Tenho 23 anos e apenas uma paixão infindável por África e por este programa. O que é que isto significava frente a um sábio homem com os seus 60 anos e claros 30 anos de experiência neste mundo onde me arriscava agora? De que valia esta força que gostava de achar que tinha? E será que a tinha? Começavam a aparecer demasiadas dúvidas, questões e inseguranças para que eu começasse a temer o fim de uma estrada que ainda nem sequer tinha começado a construir.
Acho que foi aqui o meu ponto de viragem. Foi quando naquele café de paredes cheias de fotografias de pessoas famosas que por aquelas cadeiras desconfortáveis passaram, que eu o ouvi dizer a única coisa que precisava de ouvir

“A Ana nunca vai conseguir, arriscar assim seria uma loucura”.

A loucura, move o mundo. E moveu-me a mim. Saí daquele café com a cabeça erguida, com a intenção de ignorar as duas últimas horas de conversa e com uma força e vontade gigante de mostrar que ao contrário do que achavam iria conseguir ou iria falhar, mas tentaria sempre. Não ia desistir e decidi ir até onde achasse que fosse possível, até onde as minhas forças me levassem e até onde os meus passos aguentassem. Conheço-me bem para saber que seria uma batalha na qual eu iria dar luta. Este programa seria o “meu programa”, a minha raíz no mundo e não iria desistir dele, pelo menos não com tanta facilidade.
Passaram sete meses desde aquele café. Mentiria que dissesse que foi fácil, que fiz tudo com uma perna às costas, que nunca precisei de ajuda e que nunca me desviei deste grande objectivo. Seriam mentiras. Na verdade, custou imenso, tive imensas pessoas que não acreditaram em mim e neste objectivo, a desistência às vezes tornou-se a escolha mais fácil e toda a dedicação e tempo que são precisos às vezes tornavam-se um fardo que era difícil de suportar.

A loucura move o mundo. A mim moveu-me. Passados sete meses estou aqui, a desenvolver o AHEAD Rumos São Tomé, a tornar real a sua ideia pioneira, a lutar com mais 5 pessoas extraordinárias para que nunca nos possam mais dizer que a loucura não leva a lado nenhum. Não, não me digam, nem nos digam mais isto. Provei até aqui e irei provar durante os meses de Julho e Agosto que a loucura e a paixão que me moveram estavam do lado certo da vida.

A loucura, move o mundo. 

Ana(ita) Vasconcelos


São os detalhes que definem as pessoas. 
Que lhes dão côr e forma, graça e intenção.
São os detalhes que fazem a diferença, que cativam e nos tornam naquilo que somos.
Que aproximam.



A Anita tem todos os sonhos do mundo, tem força e um desprendimento saudável que não a deixa ficar parada  ver a vida passar. Ela corre atrás, ela acredita.
Faz o caminho que lhe parece mais correcto, não dá tudo de uma vez só, não ganha confiança numa conversa de café.
É uma apaixonada pela vida, pelas experiências e momentos que nos tornam maiores, mais fortes, mais felizes.
É a mãe do nosso projecto, o  AHEAD Rumos São Tomé.
Como dentro do que é real o impossível não é nada, de um sonho pioneiro criou um programa que alimentou com vontade, responsabilidade, com garra e confiança que foi ganhando contornos cada vez mais reais.
Acima de tudo a Ana acredita.
Acredita que a mudança começa pelas coisas simples e humanas, acredita na possibilidade de fazer a diferença, que o trabalho e dedicação antecedem a concretização.
Que a luta nunca é em vão, sabe que tentar sempre mais uma vez é sinal de inteligência e humildade mas que há momentos para tudo e quando é preciso parar, para-se.
A Ana tem pronúncia do norte, força para aguentar o barco e remar contra a maré.
Está sempre pronta para rir e com um sorriso para partilhar, gosta de aproveitar o que o mundo tem para oferecer mas quando o relógio aponta “trabalho” as prioridades mudam para que os objectivos sejam alcançados.
Se quinta feira vamos partir rumo a São Tomé e Príncipe com um sorriso e muita vontade na bagagem é à Ana que temos que agradecer.
Ela acreditou na mudança, neste projecto, em nós cinco.
Ainda há muito para conhecer, curiosidades por perguntar, feitios para compreender e mais detalhes para reparar.
Sabe melhor quando é aos poucos, tem muito mais sabor quando se descobre devagar.
A Ana acredita e nós acreditamos nela.
A palavra preferida nunca vai deixar de ser a mesma, AHEAD Rumos São Tomé.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Anita vai a África II

Um dia acabei de te escrever com uma promessa.
Uma promessa que sabia bem que iria cumprir. Não foi, nunca, uma promessa em vão, uma promessa que não foi pensada, que não foi querida, que não era expectável, que saiu sem sentimento. Foi uma promessa que veio do fundo do meu ser, da mudança que fizeste na minha vida, da visão que me ajudaste a enxergar, do meu coração de menina de 20 anos.

Um dia acabei de te escrever com uma promessa.
Jurei-te que haveria de voltar. Com todas as minhas forças e com toda a minha coragem bati nas teclas do computador ao escrever aquela última frase. Lembro-me como se fosse hoje, estava sentada no sofá da sala com as pernas "à chinês" com o computador por cima e chorei a cada letra que escrevi. Chorei, chorei e ficou o vazio.
Durante muito tempo senti esse vazio. Não sabia explicar, não o queria explorar, não me queria interrogar. Durante muito tempo, vim aqui a este blog para tentar combater esse vazio, essa dor, para te relembrar, para nunca deixar que a saudade e o tempo nos apagassem. Não te consigo explicar como só de ler um ou dois textos parecia que me encontrava, parecia que por momentos voltava aí, à terra do vermelho-alaranjado, a essa certeza certa que só tu me conseguiste dar.

Um dia acabei de te escrever com uma promessa.
Mais do que querer, passou a ser uma necessidade, uma busca incessante, uma vontade inexplicável, uma certeza incerta e uma sensação que o meu caminho tinha que voltar a traçar-te.

Um dia acabei de te escrever com uma promessa.
Prometi-te "Nada mais será como dantes. África hei-de voltar!".
Nada mais foi e voltarei, voltarei para ti, para me perder novamente na onda em que só tu me sabes levar.

domingo, 30 de agosto de 2009


Aos melhores meses da minha vida:


Nada mais será como dantes.
África hei-de voltar!

sábado, 29 de agosto de 2009


Fotos: Orfanato 1º de Maio

A reacção não era a mesma, as feições não eram as mesmas, o olhar estava alterado, o sorriso dava lugar a uma tristeza, os berros típicos de crianças eram substituídos pelo silêncio que nunca reinava aquele orfanato.
Os mais pequenos não se aperceberam o que aquele último "olá" significava, mas os mais crescidos sim. Aquele "olá" seria o último, o derradeiro, a última visita, a última entrega tão próxima, o último sorriso partilhado, o último abraço. Sim, foi o último dia em que pisamos o orfanato 1º de Maio, que sentimos aquele calor a que já estávamos tão, tão habituados.
As horas foram passadas a brincar com os mais pequeninos. Os mais velhos não se aproximaram. Senti exactamente o que senti quando ali pus os pés pela primeira vez: que aquelas crianças não se deixavam tocar, não se aproximavam de nós a não ser pelo toque, não se ligavam, não nos deixavam ir mais além.
O toque foi habitual, os mais pequenos não sabiam que cada sorriso era uma despedida, por isso foram tão desprendidos como o usual, nem nós quereríamos de outra forma.
Via ao longe o olhar da Clarinha, da Florença e do Vicente. Falo-vos especialmente deste três meninos que me marcaram como nunca. O Vicente dava-me abraços leves, rápidos apenas quando lhe pedia, a Clarinha fingia nunca me ver, passando mesmo à minha frente, a Florença mirava-me sempre de longe, numa cara sem expressão.
Chegava a hora, não podíamos prolongar mais, era tudo demasiadamente doloroso. Despedi-me de todos com um beijinho na testa sem que algum deles se apercebesse que o meu aperto no coração aumentava com cada beijinho.
Foi nesse momento. Com o Vicente já abraçado a mim vi a Clarinha correr para os meus braços. Suplicou-me que não a abandonasse, que não me fosse embora, que não a deixasse, fazendo-me promessas de bom comportamente que supostamente me iriam convencer a ficar. Tentei explicar-lhe que não podia ficar da melhor forma que o limite da força que fazia para não chorar conseguia. Agarrada a mim já ao portão batia com os pés como quem faz uma birra e continuava a pedir. Sentou-se em frente do Portão para eu não o conseguir abrir. Não me queria deixar sair daquele sitio, não percebia a minha partida, não entendia que se gostava tanto dela o porque da minha despedida. Choramos as duas juntas com o Vicente ainda agarrado a mim. Nessa altura chega a Florença. Aquela menina que tão raramente esboçava sorrisos, que tão levemente me deixava entrar no mundo dela, que tão dificilmente me olhava de frente começou a chorar sofregamente. Chorou, chorou, chorou. Nunca me custou tanto, ainda agora me arrepio. Nesse momento disse-me:

"_Sabes porque é que nunca falava contigo Ana?"

"_ Não Florença, diz-me."

"_ Porque me vais deixar, porque já sabia que ias embora. Vão todos para casa, eu fico sempre. E fico sempre sem as pessoas que gosto."

Como doeu. Nunca, nunca na minha vida me custou tanto uma atitude minha. Nunca!
"Morri" aos pedaços por dentro, vagarosamente, na meia hora que estive em frente ao portão do orfanato com aquelas 3 crianças. A "morte" é dolorosa, pelo menos a minha naquele momento foi.

Afinal de contas consegui tocar aquelas crianças tão aparentemente intocáveis.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009



Foto: Vicente

Imaginem...
Imaginem um orfanato colorido.
Imaginem o parque infantil onde 500 crianças brincam, se empoleiram nas grades,trepam árvores, correm uns atrás dos outros, gritam, chamam pela atenção dos que os olham.
Imaginem no meio de tanta multidão uma rapariga.
Imaginem uma rapariga sentada no chão, com pernas à chinês.
Imaginem a rapariga que enrolava a criança.
Imaginem uma criança de 3 anos sentada ao seu colo.
Imaginem o bater do sol na sua cara rechonchuda típica de uma criança pequena.
Imaginem que o bebé adormecera no seu colo, encostado ao seu peito com o dedo na boca.
Imaginem este cenário no meio da confusão.
Imaginem que os dois vivam um momento só seu.
Imaginem o olhar triste dessa rapariga.
Imaginem que é um olhar de despedida, de uma despedida forçada, necessária, imposta, que nenhum dos dois podia mudar.
Imaginem a despedida em silêncio.
Imaginem a perfeição do momento.
Imaginem o relembrar de todos os momentos que passaram juntos como flash-backs nas suas cabeças.
Imaginem a lágrima a cair do canto do olho da rapariga.
Imaginem um sentimento vazio.
Imaginem...


Hoje despedi-me do Vicente. Custou-me. Sem ele saber desejei leva-lo comigo para Portugal. O meu Vicente. O meu texuguinho.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009


Foto: As pintarolas

Sentei-me na secretária de aula. Pedi para as minhas 7 pintarolas se juntarem a mim. Hoje faltava o Sipriano. Ainda bem, o meu primeiro confronto com a despedida seria menos doloroso.

"_Meninos a professora tem que falar com vocês sobre uma coisa!"

A rita fez cara de espanto, a Ema de medo, o Igor de desconfiado, o Kevin não moveu a expressão que já tinha, a Brigida continuou com o seu sorriso sempre presente e o Faquir abriu a boca. Senti o coração tremer. Estava rodeada das minhas pintarolas, dos meus meninos. Como gosto daqueles miúdos.

"_Minhas pintarolas vocês já sabiam que a professora ia ter que ir embora não sabiam? - recebi uma resposta afirmativa com a cabeça em conjunto. Os olhares dos seis mudavam, trocavam-se uns com os outros e encontravam-se não sei bem a procura do que - pronto, esse dia vai ser sexta-feira. A professora vai embora sexta-feira. Igor vai lá apontar à cartolina em que dia da semana estamos e quando é sexta-feira."

Acho que nunca vos disse. A "parede das pintarolas"- como lhe chamo- é uma das paredes da sala sombria e com cheiro estranho em que dou aulas. É a parede junto às secretárias onde trabalhamos. Esta minha parede está repleta de cartolinas, de desenhos, de estratégias desesperantes para tentar fazer com que as cores, o abecedário, as palavras, as horas, o calendário fluíssem mais facilmente naquelas cabecinhas. No meio de tanta tralha de parede, existe o calendário. O Igor, apesar de ser o mais alto da turma, é pequenino e só chega ao calendário em cima da cadeira e de bicos de pé. Assim, nesta mesma posição, apontou para segunda-feira e disse:

"_ Estamos aqui. Não é senhora professora?"
"_ Sim muito bem Igor. E quando é sexta-feira?" - respondi eu.
"_ Sexta-feira é aqui!"

Falou antes de apontar. Antes de apontar parou a olhar para a cartolina. Virou-se para mim e disse:

"_ Já?"

Olharam todos para mim à espera de uma resposta que eu mesma não tinha. Sim já, era já.

"_ Mas a professora volta, não volta?" - os olhos de interrogação sugavam-me. Não queria responder que talvez não o iria ver mais. É o mais provável, sim infelizmente é verdade. Não o queria dizer, pensar, reflectir, sentir.

"_ Talvez queridos."

"_ Para o ano?"

"_ Não para o ano vêm novos professores. Não sou eu, nem a professora Joana, nem o professor Elias. Vai ser giro, vão ver. Os outros professores vão ser vossos amigos."

Foi então que o Igor perguntou de rompante como quem arranca rapidamente a cera para não magoar tanto.

"_ A professora não volta... Nunca mais?"

Fiquei calada. Não tive resposta, não tive reacção. Aprendi aqui em África a, por vezes, não ter reacção às coisas. Ficar calada, sem saber o que dizer, o que fazer, o que sentir.

Agarrei-me a eles, sim em plena aula, não queria saber o que a professora iria achar. Estava ali, naquele pedaço de aula que é o meu, que é o meu espaço de cor naquela sala sombria.



"_ Quando for embora eu vou chorar. Vou ter saudades professora" - disse a Ema, afirmaram os outros.


Estas são as minhas pintarolas, o meu orgulho, os meus olhos, os meus berros, a minha pureza, a minha dedicação, o meu suor, a minha luta, a minha vitória!